É do vovô! É do vovô...
Não sei explicar por que me acontece, mas algo em mim atrai as crianças. Louvo a Deus por isso, porque gosto de criança e, principalmente, porque exercer involuntária e despercebidamente essa atração sobre elas é muito bom e me deixa deveras feliz. Criança não dissimula: é sincera e verdadeira. Embora nem sempre as registre, já perdi a conta das vezes em que, inesperadamente e de formas diversas, fui abordado por crianças desconhecidas, a quem nem sequer eu vira antes.
Vou citar aqui, como exemplo, três episódios já publicados em crônica. Em todos, repito, a criança era desconhecida. O caso do garoto que chorava desesperadamente na rua e me pediu ajuda, objeto da crônica “Um Dia das Crianças Diferente”; o da garotinha loira do supermercado que me perguntou se eu estava comprando ou vendendo, registrado na crônica “A perspicácia e a simplicidade das crianças”; e, mais recentemente, o da sobrinha de Maçonaria que, embora nunca tivesse me visto antes, preferiu minha companhia à da mãe durante uma reunião na Câmara Municipal de Marabá, do que falo na crônica “O meu tio maçom e eu”.
Hoje, por volta das 10 horas, fui a uma loja relativamente próxima da minha casa, com o intuito de comprar um par de sapatos. Como a loja não vendia sapatos, resolvi escolher algumas roupas, inclusivamente um paletó, já que a atendente era muito solícita. E foi aí que, sem que eu esperasse, mais uma dessas criaturinhas de Deus resolveu me deixar intrigado e profundamente comovido. Tinha, mais ou menos, uns três aninhos e estava acompanhada do irmãozinho de uns dez anos e dos pais. Um pinguinho de gente.
Eles foram à loja comprar uma camisa de presente para alguém e, embora tenham chegado bem depois de mim, a vendedora me pediu permissão para registrar primeiro a compra deles, uma vez que se tratava de apenas um item. Concordei, claro, e fiquei ao lado, aguardando. Notei que o homem, enquanto era atendido, me olhava com cara de poucos amigos, não sei por quê. A mulher, em dado momento, olhou para mim, mas ficou calada. Éramos desconhecidos e não tínhamos o que conversar. Demorou pouco. Ele pagou a compra e saíram, os pais na frente e as crianças atrás.
Foi aí que a pequena, o pinguinho de gente abençoado que me ignorara totalmente o tempo todo, já quase na porta do loja, voltou ao balcão e, para minha surpresa, me entregou o pacote. Disse-me algo ininteligível seguido da palavra “vovô” e, resoluta, voltou para o irmão e os pais. O menino, obviamente, veio logo e pegou de mim a camisa, que, por sinal, estava numa sacola de presente. A pequena, contudo, não concordou e o seguiu, protestando, alto e bom som: “Não! É do vovô! É do vovô...” Fiquei surpreso? Naturalmente. Mas já estou me acostumando com elas. Paguei minhas compras e voltei para casa, feliz da vida!
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 08/02/2026