Vá confiando no Google, vá!...
Irra!... A inteligência artificial é burra. É burra, sim, senhor. Melhor dizendo, é estúpida, pois burra é a fêmea do burro. Segundo me dizia meu pai, o burro é um animal inteligente. Estupidez, contudo, virou burrice (melhor dizendo, virou sinônimo de burrice). Meu pai, dentre tantos ofícios, foi tropeiro. E ele dizia que o burro nunca pisa duas vezes no mesmo buraco. Não, não pisa. Refuga! Logo, o burro não é burro. Burro é quem pensa o contrário. Este, sim, é estúpido. Isso, todavia, nada tem que ver com escanção. Aliás, com escanção até pode ter. Com escansão, porém, não. Não tem.
“Pois, pois” – como diria um escanção, lá das terras de além-mar. Sim, escanção é usado em Portugal. O escanção é português, mas a escansão também o é, conquanto sejam diferentes. Aquele prova, classifica e serve o vinho; esta conta as sílabas do verso de um poema. Nada que ver um com a outra. Não é mesmo? Salvo, obviamente, em se tratando de um escanção que, além de entender bem de vinho, também entenda bem e goste de poesia. E faça escansão. Aliás, vinho também é poesia. É poético, romântico. Eu acho.
O vinho é, sim, poético. Se sextou, vinhe-se. Poeme-se. Poetize-se. Não necessariamente nesta ordem. De vinhar, poemar e poetar. Ou poetizar. Dá na mesma. Basta, para isso, querer brincar com as palavras. Que, claro, são boas coleguinhas. Boas e belas. Sim, elas o são. Ambas as coisas. Já os vocábulos, não. Não o são. Eu, pelo menos, não o acho. Aliás, eu não acho: eu penso. Achar e pensar não são a mesma coisa. Vocábulo e palavra só são sinônimos para o leigo. Linguística ou tecnicamente falando, são diferentes. Não são sinônimos.
Paragrafo (sim, de paragrafar). Mudo de parágrafo. Só por querer mesmo. Paragrafar existe. É verbo. Sabia? Não sabia? Tudo bem, fique sabendo. Eu, querendo, paragrafo. Seja ou não seja necessário paragrafar. Brincar com as palavras (e com a última flor do Lácio) é bom por isso. Liberdade. Dá liberdade. Mas – é claro – com responsabilidade. Liberdade com responsabilidade. Sem é proibido. Não deve, não se deve. Poder, até pode. Aí, contudo, dá problema. O quê? A liberdade sem responsabilidade. Liberdade sem responsabilidade dá problema. E, às vezes, grave! Problema grave.
Complicou, não é? Sim, complicou. Aparentemente. Só aparentemente. E de propósito. Ou seja, propositadamente. Do ponto de vista da gramática normativa, não se deve dizer (nem escrever, é claro) “proposital”, “propositalmente”, mas, sim, “propositado”, “propositadamente”. Poder, até pode. E, evidentemente, muitos o dizem. Dizem e escrevem. Pode? Pode, mas não deve. Bom, do ponto de vista da gramática normativa. Napoleão Mendes de Almeida, seguindo a lição de João Ribeiro, ensinava que não deve. No seu Dicionário de questões vernáculas, por exemplo.
Mudando de pau para cacete (propositada e necessariamente). Sobre escanção e escansão, fiz uma consulta apenas para testar, pois já conhecia bem as duas palavras. Pois, pois! A inteligência artificial – sim, a famosa IA – cometeu a heresia de afirmar (por escrito, obviamente) que escanção e escansão se referem à mesma coisa, qual seja, ao ato de contar as sílabas poéticas de um verso. E concluiu: “Ambas as formas estão corretas, mas ‘escansão’ é a grafia mais utilizada e formal.” Caramba, que loucura! Errou feio. Não, não! Claro que não é, criatura. Escanção, palavra masculina que vem do francês, é sommelier. Escansão, feminina que vem do latim, é a contagem de sílabas poéticas, além de outros significados. Vá confiando no Google, vá!...
Enviado por Valdinar Monteiro de Souza em 01/11/2025
Alterado em 01/11/2025